sábado, 24 de janeiro de 2009

Vinicius de Moraes


VINICIUS
O POETA QUE TUDO VIVEU E TUDO SENTIU

A chama
A poesia de Vinicius de Moraes uiva para a lua. Sua voz tremula como um véu transparecendo o homem. Em seus poemas, doçuras e horrores brincam de roda em torno do amor infinito que ele vivia enquanto duravam suas escrituras. Vinicius não poetava, confessava em versos; e seu perceber o mundo e vivenciá-lo era de tal modo lírico que redundava em poemas.
Ele veio ao mundo em 1913, trazido nas asas de uma tempestade de primavera. Chegou feio e magrinho.

Seus ancestrais, ligados à literatura e à música, foram certamente o rascunho daquele que deixaria uma obra sólida nas duas artes.

É bem possível que já o tenham dito (eu juro que nunca li ou ouvi), mas, considerando a obra do autor como um todo, fica-me a impressão forte de que ele amou o amor. Todas suas nove esposas e as namoradas eventuais foram espelhos em que se projetou, com maior ou menor nitidez, o amor ardente que ele trazia dentro de si. Quando o reflexo esfriava, o amor continuava ardendo, então ele carecia urgentemente de outro espelho, precisava contemplar o amor. Suas musas foram o papel branco e macio em que Vinicius pintou o retrato de Eros com as mais distintas vestes. Ele foi um homem que tinha uma absoluta e maiúscula necessidade de viver sob o estado revolucionário da paixão. Entenda-se que o fato de amar o amor não anula a legitimidade de seus sentimentos pelas mulheres com quem se relacionou. Elas foram agentes detonadores do sentimento amoroso por méritos próprios e singulares. Cada uma delas foi uma face de percepção amorosa. Foram amantes, namoradas, noivas, esposas, mães e, afinal, amigas em que seu ser inquieto repousou. Quanto ao poeta, creio que foi, sobretudo, filho.

Sua poesia começou quando ele tinha nove anos e se apaixonou por uma menina de onze, Cacy. Dedicou-lhe um poema singelo que ela guardaria para sempre. Depois veio Veda; depois Marina, provavelmente seu primeiro beijo. Aos quinze conheceu o sexo com Rosário, uma mulata de origem simples, cinco anos mais velha que ele. Já na Faculdade de Direito, teve breve interesse por Sara, mas logo foi arrebatado pela primeira grande paixão: Antônia.

Casou-se duas vezes com Tati, e com ela teve Suzana e Pedro. Entre os dois casamentos com Tati, viveu outra breve união com Regina Pederneiras. Depois desposou Lila, com quem teve duas meninas: Georgiana e Luciana. Sua quarta mulher foi Maria Lúcia Proença, com quem viveu cerca de dois anos e muitas recaídas que ela nunca aceitou. Aos cinqüenta anos, apaixonou-se por Nelita, de vinte. Em 1968, casou-se com Cristina Gurjão, e com ela teve Maria, sua última filha. Depois dessa relação breve e tumultuada, foi a vez da baiana Gesse Gessy. Ela o iniciou no candomblé e o levou a conhecer Mãe Menininha do Gantois. Foi por meio dela também que tomou contato com o movimento hippie e com a contracultura, bem como com a herança afro-brasileira. Em 1976, uniu-se à argentina Marta Rodriguez Santa Maria, também poeta. E, finalmente, Gilda Matoso, sua última companheira.

Esse amor plural de Vinicius de Moraes estendia-se aos amigos, familiares e à alegria. Ele foi escravo da alegria, sabia onde obtê-la, como despertá-la no outro. Foi seu amante inconteste. Privou da alegria de centenas de noites varadas com amantes e amigos, fazendo amor, poesia e canções; de noites prenhes de excepcionalidades que ele soube cultivar; de sustos bons; de descarrilamento das expectativas do outro, feito por meio do elemento surpresa, como um carro cheio de flores; passagens aéreas compradas em surdina para ter a amada diante de si; pratos especiais feitos de madrugada, poemas irresistíveis; canções que eram crônicas de amor.

O fato é: Vinicius de Moraes sabia afetar uma mulher. Ele amava como um cavalheiro que tira alguém para dançar num salão do final do século XIX. Amava como um príncipe doce e perverso que rouba donzelas. Como uma serpente sensual de pele incoerentemente cálida. Sabia fazer, em especial no início de suas relações, com que sua parceira fosse interlocutora, cúmplice. Assim, contracenava com ela, embevecido dos efeitos lisérgicos da paixão. Sua existência foi uma sucessão de idílios costurada pela vida de diplomata e de boêmio. Triunfou o boêmio: a partir de dado momento, ele pôde ganhar a vida criando, viajando, cantando, sempre acompanhado do uísque, considerado por ele o "cão engarrafado", o melhor amigo do homem. Todo o resto veio a reboque, já que ele pertence a uma numerosa geração de intelectuais dados a veleidades literárias.

Vinicius é uma interação sem fim de teias e teias de relacionamentos. Se fossem somente as mulheres, seria mais fácil concatená-las, mas não. São súditos, amigos, irmãos, parceiros, melhores amigos em cada estado ou cidade, conhecidos episódicos de uísque e de conversa, um inferno de gentes.

Quando se encara o Vinicius de Moraes, sujeito histórico, já morto, fica difícil apagar sua existência, ele ainda parece estar por perto. Sua humanidade transbordava em gestos e palavras, muitas vezes rudes, que desandavam em machismo vulgar, num lapso inconsciente de homem inseguro; também numa tristeza crônica que o fazia dependente químico da alegria. Ela o sustentava como a um doente que depende de morfina para fazer cessar sua dor. Era capaz de, de repente, chorar literalmente o horror de estar no mundo. Tinha uma fragilidade que o levou a se esconder num canto da Disneylândia, chorando copiosamente seu medo dos brinquedos perigosos. Era homem de carrosséis e de carrinhos de bater, seu heroísmo era outro. O de ter uma relação visceral com o mundo ideal, num platonismo sensual e todo dele, todo próprio. Enfrentou a vida sendo ele mesmo, sem reservas; mas seus antagonistas e coadjuvantes nem sempre decoraram o enredo que ele supunha estar em cena.

A maior aventura de seu corpo era o sexo. Afora isso, o abuso do álcool. Numa noite de 1963, Nelita, sua sétima esposa, trinta anos mais jovem que ele, preocupada, lhe pediu que parasse com aquilo. Ele lhe disse que ainda não havia chegado aonde queria. Aonde ele queria chegar? Ao choro. Há vários depoimentos que depõem sobre sua necessidade de chorar. Daí o imperativo de criar sempre, ainda que transitoriamente, a sensação da alegria; ela o distanciava de seu próprio poço. Foi talhado para a felicidade, e, como diria Jean Paul Sartre, "o inferno eram os outros" que não conspiravam simultaneamente para a felicidade do poeta.

Era como se Vinicius fosse a única bailarina a decorar a coreografia. A crueza do mundo o devastava, e ele tratava de torná-la lenda, coisa épica. O poeta teve, como Manuel Bandeira, que, aliás, o definiu como um "monstro de delicadeza", sua mitologia pessoal. Foi um menino que transformava aquilo que era difícil de encarar numa fábula que incorporava a essa mitologia. Por isso, talvez tenha tido dificuldades em lidar com a infância de seus filhos. Eles eram concretos demais. Meninos que careciam de um menino. Na adolescência deles, Vinicius, se não pôde ser um pai clássico, pôde ser um amigo e camarada, e seu amor paterno afinal fluiu. Não que ele não os tivesse amado pequeninos, mas eram deveras pequeninos para que ele, com seus braços de nuvem, pudesse contê-los.

"Meu tempo é quando"
Que dizer de Vinicius de Moraes? Que nasceu no dia tal, numa família amante das artes; de pai latinista e de mãe alegre (teve uma infância com trilha sonora, já que sua mãe não parava de cantar!); que teve mimos e afagos; que foi protegido até o fim por sua irmã mais velha, Lygia; que foi advogado pela Faculdade de Direito do Catete; que depois cursou a Universidade de Oxford como bolsista; que teve nove esposas, quatro filhas, um filho? Que amou o cinema, chegando mesmo a ser crítico dessa arte e um censor que nunca censurou um filme? Que esteve na diplomacia, em Los Angeles, Paris, Montevidéu, Ouro Preto, Lisboa? Que correu o Brasil, a Europa e a América Latina em intermináveis excursões musicais?

Comecemos por sua condição de carioca. Em certa crônica ele dizia:

"Ninguém é carioca em vão. Um carioca é um carioca. Ele não pode ser nem um pernambucano, nem um mineiro, nem um paulista, nem um baiano, nem um amazonense, nem um gaúcho. Enquanto que, inversamente, qualquer uma dessas cidadanias, sem diminuição de capacidade, pode transformar-se também em carioca; pois a verdade é que ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito. Eu tenho visto muito homem do Norte, Centro e Sul do País acordar de repente carioca, porque se deixou envolver pelo clima da cidade e quando foi ver... kaput! Aí não há mais nada a fazer. Quando o sujeito dá por si está torcendo pelo Botafogo, está batendo samba em mesa de bar, está se arriscando no lotação a um deslocamento de retina em cima de Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Rubem Braga ou Stanislaw Ponte Preta, está trabalhando em TV, está sintonizando para Elizete.

Pois ser carioca, mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização. Ser carioca é não gostar de levantar cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo; é amar a noite acima de todas as coisas, porque só a noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é trabalhar com um ar de ócio, com um olho no ofício e outro no telefone, de onde sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti”.

Embora tenha declarado que "São Paulo é o túmulo do samba"; e de costumar chatear os amigos paulistanos dizendo: "Eu gosto muito de São Paulo. O único problema dessa cidade é que você anda, anda, anda e nunca chega a Ipanema"; ele ia para lá com freqüência. Chegava a tomar um táxi em Ipanema e pedia muito compenetrado ao motorista: "Me leve para São Paulo, por favor. Se quiser pode passar em casa para avisar a patroa e pegar uma escova de dentes". Um de seus melhores amigos era o paulistano Zeca Marques da Costa, único homem com quem Vinicius partilhava uma banheira. A respeito dessa amizade, costumava dizer a uma de suas esposas: "Não se meta, somos um casal idoso que completou as bodas de prata". Era louco por banheiras. Nelas repousava, bebia, escrevia com a máquina sobre uma tábua; inúmeras vezes dormiu e inundou a casa.

Outro aspecto importante da vida do poeta foi a religiosidade. Aos onze anos entrou no Colégio Santo Inácio no Rio de Janeiro, dirigido por jesuítas afetuosos, mas severos. A educação religiosa ministrada a Vinicius promoveu uma angústia existencial, que desencadeou uma série de poemas metafísicos em que o conflito entre carne e espírito esteve sempre presente. Essa fase durou até 1932, aproximadamente. Tendo entrado na faculdade dois anos antes, ele se integrou ao Centro Acadêmico Jurídico Universitário, o CAJU, freqüentado pelos alunos mais aplicados, Com esse grupo teve longuíssimas tardes e noites de discussões filosóficas que o levaram a leituras de Nietzche e Kierkegaard, entre outros. Nesse período, contou com um "mestre" devotado e brilhante, o futuro romancista Octávio de Faria. O interesse pelo discípulo transcendeu a fraternidade e Octávio sofreu uma longa e platônica paixão pelo jovem Vinicius. Esse fato contribuiu grandemente para o rompimento da amizade. Também é dessa época, sob a influência do grupo, a empatia do poeta pela direita e pelo fascismo. Felizmente tal fascínio diluiu-se como um mal adolescente, quando lugar a uma tomada de consciência que o levou a ser um homem de esquerda. Fato determinante dessa guinada ideológica deu-se em 1942, quando acompanhou o escritor marxista norte-americano Waldo Frank numa viagem pelo Norte e pelo Nordeste do Brasil. Nessa ocasião o poeta se deu conta da miséria e dos abismos sociais existentes no país.

A nova perspectiva o levou a escrever poemas como "Operário em Construção", "Rosa de Hiroshima", entre outros; e a inaugurar uma fase menos idealista, e mais comprometida com o cotidiano e com o social, sem abandonar, é claro, a temática amorosa, mas lhe conferindo mais sensualidade.

O Músico
A questão musical é algo que daria outra matéria, ou mais apropriadamente, um livro. Temos o grito explicitado do que foi o poeta em "Violinos e Batuques" desta revista. Ao somar seus parceiros, podemos tapar as bocas estéreis dos que se referem a ele como um intelectual que se entregou à "música fácil" (chamada por um crítico nefasto de easy music). As parcerias começaram aos catorze anos, com os irmãos Tapajós, com duas músicas sofríveis: "Canção da Noite" e "Loura ou Morena".

O ano de 1956 abre seu caminho para o showbusiness: conhece Tom Jobim, o gênio de 29 anos, quebrado economicamente, e que seria seu parceiro em várias obras-primas. Aquele que, depois de Heitor Villa-Lobos, talvez tenha sido o maior músico brasileiro de todos os tempos e com quem compôs não a melhor canção, mas a de maior sucesso: "A Garota de Ipanema". Outros parceiros o sucederam, tais como Baden Powell, Carlos Lyra, Francis Hime e o intuitivo máximo, fã de Bach: Pixinguinha, aquele que Vinicius consideraria "o melhor homem" que já conhecera. Temos ainda o jovem Chico Buarque de Hollanda, que dispensa apresentações. Claro está que os demais também dispensariam apresentações, mas num triste país sem memória como o nosso...

Seu último e mais devotado parceiro foi o músico Toquinho, que, apesar de ser 34 anos mais jovem que o poeta, fez, muitas vezes, o papel de seu pai. Foi descansando dentro de uma banheira, depois de ter passado a noite trabalhando junto com seu companheiro na trilha sonora de A Arca de Noé para a Rede Globo, que Vinicius sentiu-se mal pela última vez. Seu corpo estava comprometido pelo álcool e seus pulmões em péssimo estado. Além disso, havia anos lutava contra o diabetes. Foi encontrado pela empregada com a respiração acelerada. Toquinho foi socorrê-lo. Eles tinham onze anos de estrada juntos.

Conquistaram a Europa, em especial Itália e Portugal, a América Latina, onde têm uma legião de fãs ardorosos; fizeram intermináveis excursões pelos circuitos universitários; gravaram discos antológicos, e mais: se queriam muitíssimo bem. Esvaziaram a banheira, cobriram-no com toalhas secas, mas o poeta não resistiu: seu pulso parou sob os dedos desesperados de Toquinho.

Enfim, Vinicius de Moraes é um assunto infinito a quem devemos dar um fim provisório. É assim: só por enquanto podemos parar de falar dele. Como o amor, ele seria infinito enquanto durasse, e tem durado. Foi chama, mas dificilmente se acabará. Sua obra foi irregular, dado o confessionalismo do qual derivou. Mas, considerando seu romantismo latino perdurável e renovado, sua sinceridade e seu sofrer, o que ele acreditou ser sua vida, o poeta tem uma pedra indestrutível na qual se assentou na estrada antiga e perpétua da História: sua sinceridade aliada a uma competência lírica desconcertante.

Shalon, amém, saravá, axé, enfim, aquilo com que qualquer deus possa abençoar um homem bom (ainda que homem), e fazer dele uma entidade que, de tempos em tempos, visita a nós, mortais.

Revista Discutindo Literatura

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