terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crônica da cidade do Rio de Janeiro



Crônica da cidade do Rio de Janeiro
No alto da noite do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, o Cristo Redentor
estende os bracos. Debaixo desses bracos os netos dos escravos encontram amparo.
Uma mulher descalca olha o Cristo, la de baixo, e apontando seu fulgor,
diz, muito tristemente:
— Daqui a pouco, ja nao estara mais ai. Ouvi dizer que vao tirar Ele dai.
— Nao se preocupe — tranquiliza uma vizinha —. Nao se preocupe: Ele volta.
A policia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta
soam tiros e tambem tambores: atabaques, ansiosos de consolo e de vinganca,
chamam deuses africanos. Cristo sozinho nao basta.
Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As flores



As flores
O escritor brasileiro Nelson Rodrigues estava condenado a solidao. Tinha
cara de sapo e lingua de serpente, e a seu prestigio de feio e sua fama de venenoso
somava-se a notoriedade de seu contagioso azar: as pessoas ao seu redor morriam
de tiro, miseria ou infelicidade fatal.
Certo dia, Nelson conheceu Eleonora. Naquele dia, dia do descobrimento,
quando pela primeira vez viu aquela mulher, uma violenta alegria atropelou-o e
deixou-o abobado. Entao, quis dizer alguma de suas frases brilhantes, mas as
pernas bambearam e a lingua se enrolou e nao conseguiu outra coisa a nao ser
gaguejar ruidinhos.
Bombardeou-a de flores. Mandava flores para o apartamento dela, no alto
de um edificio do Rio de Janeiro. A cada dia mandava um grande ramo de flores,
flores sempre diferentes, sem repetir jamais as cores ou aromas, e ficava esperando

la embaixo: la de baixo via a varanda de Eleonora, e da varanda ela atirava as flores
na rua, todos os dias, e os automoveis as esmagavam.
E foi assim durante cinquenta dias. Ate que um dia, um meio-dia, as
flores que Nelson enviou nao cairam na rua e nao foram pisadas pelos automoveis.
Naquele meio-dia, ele subiu ate o ultimo andar, apertou a campainha e a
porta se abriu.


Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

As formigas



As formigas

Tracey Hill era menina num povoado de Connecticut, e se divertia com
diversoes proprias de sua idade, como qualquer outro doce anjinho de Deus no
estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta.
Um dia, junto a seus companheirinhos de escola, Tracey se pos a atirar
fosforos acesos num formigueiro. Todos desfrutaram muito daquele sadio
entretenimento infantil; Tracey, porem, ficou impressionada com uma coisa que os
outros nao viram, ou fizeram como se nao vissem, mas que deixou-a paralisada e
deixou nela, para sempre, um sinal na memoria: frente ao fogo, frente ao perigo, as
formigas separavam-se em casais e assim, de duas em duas, bem juntinhas,
esperavam a morte.


Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

sábado, 7 de novembro de 2009

A única razão


A vida é uma grande incógnita...

Amar...

Fazer...

Criar...




Certeza?

Vida...

Morte...

Fé...




Caminhos obscuros...

Mas a luz é você.

Única certeza...Amar... Razão...Vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Fundação da beleza


Fundação da beleza
Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.


Estas figuras, bisões, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens, não têm idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.


Como eles conseguiram, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como eles conseguiram, esses brutos que de mão limpa lutavam contra as feras, criar figuras tão cheias de graça?Como eles conseguiram desenhar essas linhas voadoras que escapam da rocha e se vão para o ar? Como eles conseguiram …?


Ou seriam elas?


Eduardo Galeano - Le Monde Diplomatique

Fundação da poluição


Fundação da poluição
Os pigmeus, que têm corpo pequeno e memória grande, recordam os tempos de antes do tempo, quando a terra estava acima do céu.


Da terra caía sobre o céu uma chuva incessante de pó e de lixo, que sujava a casa dos deuses e lhes envenenava a comida.


Os deuses estavam, havia uma eternidade, suportando essa descarga sebosa, quando sua paciência acabou.


Enviaram um raio, que partiu a terra em dois. E através da terra aberta lançaram para alto o sol, a lua e as estrelas, e por esse caminho subiram eles também. E lá em cima, distante de nós, a salvo de nós, os deuses fundaram seu novo reino.


Desde então, estamos embaixo.

Eduardo Galeano - Le Monde Diplomatique

Anjos e crianças


Anjos e crianças
Não são poucos os poemas em que Bandeira aborda a infância como região idealizada, cuja simples rememoração pode amenizar o espaço presente da solidão, dor, perda, doenças e aporias que todo adulto precisa lidar [1]
Pedro Marques

(12/09/2008)

Estamos em 1936. A essa altura da carreira, o poeta possuía razoável reconhecimento. Neste ano de seu cinqüentenário sai o volume Homenagem a Manuel Bandeira, com trinta e três colaborações de escritores, intelectuais, jornalistas entre estudos, comentários, poemas e impressões sobre sua obra. A partir da segunda metade dos anos trinta, além dos versos e crônicas constantes na imprensa, passa a ser homem influente nas instituições de fomento ao ensino e à cultura. Em 1935, pelas mãos de Gustavo Capanema, é nomeado inspetor do ensino secundário; em 1938, professor de literatura do Colégio D. Pedro II e membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em 1940, é eleito para Academia Brasileira de Letras. O final da década marca, ainda, o início das publicações voltadas aos estudos literários. Em 1937, sai a Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica; em 1938, a Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana. A seleção e introdução concebidas aí por Bandeira são referências até hoje.

O prestígio artístico, intelectual e pessoal não se converte em engessamento de possibilidades poéticas. Bandeira, não estaciona no radicalismo modernista, sabe retomar e reelaborar modelos tradicionais presentes desde os dois primeiros livros. O conjunto de poemas que compõem Estrela da manhã (1936) retrata o processo. Há um número razoável de poemas metrificados no livro, cerca de dez; bastante, quando comparado a Libertinagem, em que havia cerca de três. Sua poesia, no mais, continua influente no contexto nacional, em meio à aparição de pesos como Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Murilo Mendes.

Para Leônidas Câmara (1980, p. 168), neste livro, o sarcasmo e a ironia que os “anteriores utilizam com alguns disfarces, com uma boa dose de artifícios, surgem de corpo inteiro. Aqui o prosaico, o nada tradicionalmente poético ou o poético exaurido são materiais que o poeta utiliza na clara saída da poesia”. São muitos poemas a confirmar essa observação, embora o aproveitamento dos temas até então não poéticos ou prosaicos seja algo, a meu ver, decisivo desde O ritmo dissoluto e consolidado em Libertinagem. Pode acontecer ao leitor que leia de enfiada a obra de Bandeira do início, chegar em Estrela da manhã sem se surpreender com a expansão sobre os temas corriqueiros e, assim, veja-os despidos de “disfarce” ou “artifícios”.

O volume expõe pluralidade formal e temática. Há convivência entre verso livre, poema-prosa, redondilhas maiores e menores, etc. Poemas que falam de anjos, de amadas, de enterro, de paisagens citadinas, enfim, uma flora sortida. A diversidade é parte daquela característica de coletânea de seus livros. Suas publicações absorvem, inclusive, textos da época de outros volumes. Daí a dificuldade de eleger unidade rígida para qualquer um de seus livros, aparentados a painéis pouco lineares com algumas constantes de técnica, fundo e forma.

Continuam os cortes no cotidiano que, de certa maneira, viram sua assinatura. Os poemas em geral são curtos, alguns deles minúsculos, trazendo não raro apenas uma sacada ou flash, como o “Poema do Beco”. Às vezes, advém alguma linha narrativa precária que ora nos perde, ora nos acha nesse mosaico de assuntos cujas formalizações se refazem. Bandeira, como sempre, manobra formas fixas consagradas do gênero lírico, mesmo que só nos títulos das peças: “Canção das Duas Índias”, “Balada das três mulheres do sabonete Araxá”, “Cantiga”, “Chanson des petits esclaves” e “Rondó dos cavalinhos”.

Região idealizada
“Sacha e o Poeta” é desses como que desentranhados do dia-a-dia. Desses instantâneos como se pululantes ao faro do poeta capaz de extrair poesia do corriqueiro. Mira de cronista viajante, observa dada realidade cotidiana e a recolhe como a coisa mais singular do mundo. Ao mesmo passo que nos soa familiar, o poema inclui novidade. O mote é simples: um poeta entra em folia com uma menina que mal aprendeu a balbuciar. Conta história, brinca de faz-de-conta, faz barulho com a boca prendendo a atenção de Sacha, até que ela toma a cena e submete o poeta a seus encantos. Os versos acabam movimentando uma das avenidas principais da poética bandeiriana: a infância que impregna os textos de nostalgia e de ternura. Em versos ou crônicas constantemente se entrelaçam elementos da infância pessoal e da observada.


Sacha e o Poeta

Quando o poeta aparece,
Sacha levanta os olhos claros,
Onde a surpresa é o sol que vai nascer.
O poeta a seguir diz coisas incríveis,
Desce ao fogo central da Terra,
Sobe na ponta mais alta das nuvens,
Faz gurugutu pif paf,
Dança de velho,
Vira Exu.
Sacha sorri como o primeiro arco-íris.

O poeta estende os braços, Sacha vem com ele.

A serenidade voltou de muito longe.
Que se passou do outro lado?
Sacha mediunizada
— Ah — pa — papapá — papá —
Transmite em Morse ao poeta
A última mensagem dos Anjos.

1931

(M. Bandeira, 1998, p. 156)

Como os quartos onde morou, Manuel Bandeira também representa sua mitologia infantil, vale dizer, seu próprio material biográfico. Totônio Rodrigues e Rosa, por exemplo, são meros personagens para quem lê “Evocação do Recife” ou “Profundamente”. Algo semelhante ocorre quando se apropria de fatos relativos à infância alheia, como a da Rua do Curvelo. O ambiente repleto de crianças age na sensibilidade do autor, que o poetiza por saudade de sua própria infância, por enxergar no mundo das crianças uma inesgotável fonte para sua produção em verso e em prosa. Na percepção de Ribeiro Couto (“No pórtico da Academia”, 2004, p. 65), a própria seqüência de cenas de “Na Rua do Sabão” teria inspiração nesse ambiente: “da vossa janela, olhando pelo morro abaixo os quintais da Rua Cassiano, vedes a garotada saltear com assobios e pedradas o balão”.

Há textos em prosa que assessoram a compreensão dos poemas que enfocam a infância. A sobreposição entre a prosa e a poesia, além de tudo, constitui riquíssima fonte de relações temáticas, permitindo refletir sobre as atuações do poeta e do cronista. Uma crônica em particular deve ser confrontada com “Sacha e o Poeta”. Um trecho de “A Trinca do Curvelo” (1966, p. 22), em que Bandeira oferece um rico apanhado da presença infantil nos arredores da ladeira do Curvelo:


Os piores malandros da terra. O microcosmo da política. Salvo o homicídio com premeditação, são capazes de tudo, – até de partir as vidraças das minhas janelas! Mentir é com eles. Contar vantagem nem se fala. Valentes até na hora de fugir. A impressão que se tem é que ficando homens vão todos dar assassinos, jogadores, passadores de notas falsas... Pois nada disso. Acabam lutando pela vida, só com a saudade do único tempo em que foram verdadeiramente felizes.

Mais que a temática semelhante, o excerto situa a infância como época de felicidade, de pureza que cega as crianças das agruras da vida adulta. Não são poucos os poemas em que Bandeira aborda a infância como região idealizada, cuja simples rememoração pode amenizar o espaço presente da solidão, dor, perda, doenças e aporias que todo adulto precisa lidar. Em contraposição à maturidade, na tenra idade, aparecemos inconscientes para coisas desagradáveis. Em “O impossível carinho”, de Libertinagem, não é incidental que o eu lírico, “em troca de tanta felicidade” vinda da amada, confesse confrangido que a premiaria com “as mais puras alegrias de tua infância”.

Como no poema, em “A Trinca do Curvelo” a criança é associada aos anjos. Em outro trecho, quando relata a morte de um menino da trinca que falecera de sarampo, dirá: “... e lá se foi para a trinca dos anjinhos de Nosso Senhor!”. A correlação tradicional anjo / criança morta emerge, ainda que um pouco modificada, em outra peça de Estrela da manhã. Nos versos de “Jacqueline”, a criança parece em seu velório “mais bonita do que os anjos”. Assim, quando ouvimos Zé Kéti cantar “é mais um coração / que deixa de bater / um anjo vai pro céu”, no seu samba de protesto “Ascender as Velas” (1970), já imaginamos que a mortalidade infantil atacou mais uma vez no morro.

Em “Sacha e o Poeta” há um contraponto entre a condição de criança – aurora da vida, mensageira dos anjos, beleza pura –, com o ser poeta – aquele que consegue sugerir o inefável e, pelo empenho em recriar a língua, reveste-a sempre com o ar da novidade, de juventude, levando o leitor a uma experiência inesperada de linguagem.

Sacha com sua língua fragmentária, feita música mágica, transmite ao poeta algo que seria inatingível de outro modo. O poeta, que quis criar a novidade, abriu as lágrimas na menina. Mas Sacha não é vingativa, sendo pura, retribui com o etéreo, com a mensagem dos anjos. Proporciona ao poeta uma gota da própria infância dele, coloca-o em contato com o essencial do ser criança que um dia foi: criança como mensageira da ternura que no poema é também divina. Do confronto entre Sacha e o poeta, nós espectadores herdamos o conflito: a infância perdida para sempre e a saudade do único tempo em que fomos verdadeiramente felizes.

Referências


Bandeira, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro / São Paulo: Record / Altaya, 1998.


___. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro / São Paulo: Record / Altaya, 1997.


___. Os Reis vagabundos e mais 50 crônicas. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.


___. Poesia completa e prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1977.


Câmara, Leônidas. “A Poesia de Manuel Bandeira: seu revestimento ideológico e formal”, in Brayner, Sônia. (Org.). Manuel Bandeira / Coleção Fortuna Crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira / INL / MEC, 1980.


Couto, Ribeiro. Três retratos de Manuel Bandeira. Introdução, cronologia e notas de Elvia Bezerra. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004.

Kéti, Zé. Zé Kéti. Rio de Janeiro: Itamaraty, 1970.


[1] Este artigo é um fragmento – especialmente preparado pelo autor para esta edição do Palavra – do livro Manuel Bandeira e a música: com três poemas visitados, que Pedro Marques lançou recentemente pela Editora Ateliê, em co-edição com a FAPESP.
Le Monde Diplomatique

terça-feira, 20 de outubro de 2009

30 mandamentos para ser leitor, escritor e crítico

Yiu Rojas



Decalógo do leitor

Por Alberto Mussa


I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.

III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.

IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.

V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.

VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.

VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.

IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.

X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.



Decálogo do autor

Por Miguel Sanches Neto


Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar

I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.

III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,
você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.

IV - Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

VI - Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora. Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso. Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele...

VII - Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial. É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou. Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar. Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas. Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

VIII - Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro. Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos. Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação. E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

IX - Nunca passe recibo às críticas negativas. Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.

X - Evite reclamar de sua editora. Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe...Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.



Decálogo do crítico

Por Michel Laub


Ler por obrigação, ganhar pouco, ser odiado por autores criticados ou ignorados por você. Ante tantos dissabores, saiba para que serve, afinal, fazer crítica literária

I - Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, a biografia do americano Robert Parker. Trata-se da figura mais polêmica do universo milionário da enologia. Uma nota alta na The Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante; uma nota baixa pode significar a falência. O olfato de Parker é segurado em cerca de US$ 1 milhão. Ao longo dos anos, percebeu-se que ele gostava de vinhos frutados. Muitas propriedades, até algumas tradicionais da França, passaram a chamar especialistas para estudar o solo, mudar a forma do plantio e da colheita, tudo para colher uvas que originassem vinhos adequados a esse gosto.

II - Saiba que esse talvez seja o exemplo máximo de crítico bem-sucedido no mundo de hoje – rico de fato, influente de fato, uma presença de fato essencial em seu meio. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, gastronomia, televisão ou concursos de beleza, estão bem mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinqüenta(...) [trabalha num] conjugado frio, mas abafado (...). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam 50 ou 100 sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.

III - Ou seja, prepare-se para uma atividade enfadonha e mal-remunerada. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, não há nada a dizer sobre ele. Porque sempre haverá o que dizer. Se não houver, as contas não são pagas.

IV - Não se preocupe, porém. Há muitos truques para encher essas páginas em branco. Se você quer desancar um livro e não sabe como, recorra a alguns adjetivos algo abstratos em se tratando de literatura, mas ainda assim úteis numa resenha. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos de sua obra. Afinal, explorar conflitos é uma tarefa que não tem fim, e há um momento em que todo autor, por mais extrovertido que seja, precisa parar. Outros chavões sempre à mão: excesso de objetividade,excesso de subjetivismo, excesso de frieza, excesso de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda bastante. Um romance correto, instigante e envolvente pode ser atacado por reproduzir um modelo “burguês” de contar histórias, incompatível com o nosso tempo. Um romance sem essas características pode ser destruído, justamente, por ser mal-escrito e não envolver o leitor.

V - Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim – o das linhas finais do item IV, por exemplo –, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável, escatológica e/ou ilegível, diga que ela reproduz o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à trama caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que a maçaroca reproduz, como uma “metáfora estrutural”, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.

VI - Usando desses truques, você está pronto para fazer nome devido à afinação com o vocabulário crítico de sua época. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a realmente dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar cegamente nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de seus preconceitos íntimos em público. Assim, você terá mais chances de ser considerado um sujeito ranheta, excêntrico e/ou pervertido.

VII - O segundo caminho é considerar-se portavoz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado (por questões sociológicas, por exemplo). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade para não se considerar o juiz definitivo sobre o que é ou não relevante em termos estéticos –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem graça.

VIII - Independentemente de sua escolha, é inevitável que você seja desprezado. Todos dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta, que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da universidade, arrumar um(a) namorado(a) – ou está a soldo de alguma entidade obscura – grupos literários rivais, editores, maçons, seitas religiosas, partidos políticos de esquerda (se você escrever numa pequena publicação) ou de direita (se receber salário de alguma corporação de mídia).

IX - Mais que isso: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia (os motivos serão sempre os errados, na opinião deles). Pelos outros críticos. Por boa parte do público, mesmo por aquele que o lê com freqüência.

X - Mas se, apesar de tudo isso, você ainda insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato, Robert Parker era capaz de listar todos os ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria um campeão absoluto dos “testes cegos” de identificação de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para conjugar erudição e capacidade interpretativa em tamanha escala? Sendo a resposta afirmativa, trata-se de uma ótima notícia. Não só para você, que talvez tenha achado um modo honesto de ganhar a vida, mas para o próprio meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje ou em qualquer tempo: alguém que o ajude a firmar tendências, corrigir rumos, separar o joio do trigo. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.

Revista Entre Livros

Os livros que não lemos

por Umberto Eco

DIVULGAÇÃO

Cena de Ulisses, adaptação dirigida por Joseph Strick, 1967

Lembro-me (mas, como veremos, isso não significa que eu me lembre direito) de um belíssimo artigo de Giorgio Manganelli, no qual ele explicava como um leitor requintado pode saber que um livro não é para ser lido mesmo antes de abri-lo. Ele não estava se referindo àquela virtude que muitas vezes se exige do leitor profissional (ou ao amador de bom gosto), a de conseguir resolver por algumas palavras iniciais, por duas páginas abertas ao acaso, pelo sumário, não raro pela bibliografia, se um livro vale a pena ou não ser lido. Isso, diria eu, são ossos do ofício. Não, Manganelli se referia a uma espécie de iluminação, da qual, evidente e paradoxalmente, se arrogava o dom.

Como falar dos livros que não lemos?, de Pierre Bayard, psicanalista e docente universitário de literatura, não trata de como saber se devemos ler um livro ou não, mas de como se pode falar tranqüilamente de um livro que não se leu, mesmo de professor para estudante, e mesmo em se tratando de um livro de importância extraordinária. Seu cálculo é científico: os acervos das boas bibliotecas contêm alguns milhões de volumes, e mesmo que leiamos um volume por dia, leríamos apenas 365 livros por ano, 3.600 em dez anos, e entre dez e 80 anos teríamos lido apenas 25.200 livros. Uma inépcia. Aliás, quem quer que tenha tido uma boa educação secundária sabe perfeitamente que pode acompanhar um raciocínio sobre, digamos, Bandello, Boiardo, inúmeras tragédias de Alfieri e até sobre As confissões de um italiano [de Ippolito Nievo] tendo aprendido sobre eles apenas o título e a classificação crítica na escola.

O ponto crucial, para Bayard, é a classificação crítica. Ele afirma, sem o menor pudor, que nunca leu o Ulisses de Joyce, mas que pode falar sobre ele aludindo ao fato de que se trata de uma retomada da Odisséia (que ele, aliás, admite não ter lido por inteiro), que se baseia no monólogo interior, que se passa em Dublin em um único dia etc. Assim escreve: “Portanto, em meus cursos acontece com certa freqüência que, sem pestanejar, eu mencione Joyce”. Conhecer a relação de um livro com outros livros não raro significa saber mais sobre ele do que o tendo lido.

Bayard mostra que, quando começamos a ler livros há certo tempo negligenciados, percebemos que conhecemos seu conteúdo porque entrementes havíamos lido outros livros que falavam deles ou se moviam dentro da mesma ordem de idéias. E (assim como faz algumas divertidíssimas análises de textos literários em que se trata de livros nunca lidos, de Musil a Graham Greene, de Valéry a Anatole France) honra-me ao dedicar um capítulo ao meu O nome da rosa, no qual Guilherme de Baskerville demonstra conhecer muito bem o conteúdo do segundo livro da Poética, de Aristóteles, que ainda assim ele tem na mão pela primeira vez, simplesmente por deduzi-lo de outras páginas aristotélicas. Veremos depois, no final dessa Ecco!, que não menciono esta citação por mera vaidade.

A parte mais intrigante desse panfleto, menos paradoxal do que poderia parecer, é que esquecemos uma porcentagem altíssima até daqueles livros que lemos realmente. Aliás, compomos uma espécie de imagem virtual a seu respeito, imagem feita nem tanto do que eles diziam, e sim do que fizeram passar em nossa mente. Por isso se alguém que não leu determinado livro citar para nós passagens ou situações ali inexistentes, somos mais que propensos a acreditar que o livro fala realmente daquilo.

É que Bayard não está tão interessado em que as pessoas leiam os livros alheios, mas antes no fato de que cada leitura (ou não-leitura) tenha de ter um aspecto criativo e que (utilizando palavras simples) em um livro o leitor tenha de colocar, antes de tudo, farinha de seu saco. A ponto de auspiciar uma escola em que – já que falar de livros não lidos é uma maneira para conhecer a si próprios – os estudantes “inventem” os livros que não deverão ler.

Exceto o fato de que Bayard, para mostrar que ao se falar de um livro não lido até quem o leu não percebe as citações erradas, lá pelo final de seu discurso confessa ter introduzido três notícias falsas no resumo de O nome da rosa, de O terceiro homem, de Graham Greene, e de A troca, de David Lodge. O caso divertido é que, ao ler, percebi de imediato o erro sobre Greene, tive uma dúvida a propósito de Lodge, mas não tinha percebido o erro a propósito de meu livro. Isso significa que provavelmente não li direito o livro de Bayard ou então que eu apenas o folheei. Mas a coisa mais interessante é que Bayard não se deu conta de que, ao denunciar seus três (propositais) erros, assume implicitamente que há, dos livros, uma leitura mais correta do que outras – tanto que, dos livros que analisa para sustentar sua tese da não-leitura, dá uma leitura muito minuciosa. A contradição é tão evidente que dá margem à dúvida de que Bayard não tenha lido o livro que escreveu.

Umberto Eco é professor de semiologia da Universidade de Bolonha, na Itália, e autor, entre outros, de A misteriosa chama da rainha Loana, Baudolino, O nome da rosa e o pêndulo de Foucault

Revista Entre Livros

domingo, 11 de outubro de 2009

FRANZ KAFKA - O SILÊNCIO DA SEREIAS


domingo, 6 de maio de 1984.

FRANZ KAFKA


Prova de que até meios insuficientes - infantis mesmo podem servir à salvação:

Para se defender da sereias, Ulisses tapou o ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente - e desde sempre - todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses porém não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.

As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do seu silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante - que tudo arrasta consigo - não há na terra o que resista.

E de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses - que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes - as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses no entanto - se é que se pode exprimir assim - não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Logo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.

Mas elas - mais belas do que nunca - esticaram o corpo e se contorceram, deixaram o cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam as garras sobre os rochedos. Já não queriam seduzir, desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses.

Se as sereias tivessem consciência, teriam sido então aniquiladas. Mas permaneceram assim e só Ulisses escapou delas.

De resto, chegou até nós mais um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astucioso, uma raposa tão ladina, que mesmo a deusa do destino não conseguia devassar seu íntimo. Talvez ele tivesse realmente percebido - embora isso não possa ser captado pela razão humana - que as sereias haviam silenciado e se opôs a elas e aos deuses usando como escudo o jogo de aparências acima descrito.


Tradução de Modesto Carone

Arquivos da Folha de São Paulo

FRANZ KAFKA - UMA FOLHA ANTIGA


FRANZ KAFKA

sábado, 9 de dezembro de 1989.
É como se muita coisa tivesse sido negligenciada na defesa da nossa pátria. Até então não havíamos nos importado com isso, entregues como estávamos ao nosso trabalho; mas os acontecimentos dos últimos tempos nos causam preocupações.

Tenho uma oficina de sapateiro na praça em frente ao palácio imperial. Mal abro a porta no crepúsculo da manhã e já vejo ocupadas por homens armados as entradas de todas as ruas que confluem para cá. Mas não são soldados nossos e sim nômades vindos do norte. De uma maneira incompreensível para mim eles penetraram até a capital, que no entanto fica muito distante da fronteira. Seja como for já estão aí, parece que a cada manhã se tornam mais numerosos.

Seguindo sua natureza eles acampam sob céu aberto, pois abominam as casas. Ocupam-se em afiar as espadas, aguçar as lanças e praticar exercícios a cavalo. Fizeram desta praça tranquila, mantida sempre escrupulosamente limpa, uma autêntica estrebaria. É verdade que nós tentamos às vezes sair às pressas das nossas lojas para retirar pelo menos o grosso da sujeira, mas isso ocorre com uma frequência cada vez menos, pois o esforço é inútil e além disso corremos o perigo de cair sob as patas dos cavalos selvagens e de ser feridos pelos chicotes.

Com os nômades não se pode falar. Eles não conhecem a nossa língua, na realidade quase não têm um idioma próprio. Entendem-se entre si de um modo semelhante ao das gralhas. Ouve-se sem cessar esse grito de gralhas. Para eles nossa maneira de viver, nossas instituições são tão incompreensíveis quanto indiferentes. Consequentemente recusam também a linguagem dos sinais. Você pode deslocar as mandíbulas e destroncar as mãos que eles não o compreendem nem nunca irão compreender. Muitas vezes fazem caretas; mostram então o branco dos olhos e a baba cresce na boca, mas com isso não querem dizer alguma coisa nem assustar ninguém. Fazem-no porque é essa a sua maneira de ser. Aquilo que precisam eles pegam. Não se pode afirmar que empreguem a violência. Ante a sua intervenção as pessoas se põem de lado e deixam tudo para eles.

Também das minhas provisões eles levaram uma boa parte. Mas não posso me queixar quando vejo por exemplo o que acontece ao açougueiro em frente. Mal ele traz as suas mercadorias, tudo já lhe foi tirado e engolido pelos nômades. Os cavalos deles também comem carne; muitas vezes um cavaleiro fica ao lado do seu cavalo e os dois se alimentam da mesma posta de carne, cada qual por uma extremidade. O açougueiro é medroso e não ousa acabar com o fornecimento. Mas nós entendemos o que se passa, recolhemos dinheiro e o ajudamos. Se os nômades não recebessem carne, quem é que sabe o que lhes ocorreria fazer? De qualquer maneira quem é que sabe o que lhes vai ocorrer ainda que recebam carne diariamente?

Não faz muito o açougueiro pensou que podia ao menos se poupar do esforço do abate e uma manhã trouxe um boi vivo. Isso não deve se repetir. Fiquei bem uma hora estendido no fundo da oficina com todas as roupas, cobertas e almofadas empilhadas em cima de mim para não ouvir os mugidos do boi que os nômades atacavam de todos os lados para arrancar com os dentes pedaços de sua carne quente. Quando me atrevi a sair já fazia silêncio há muito tempo; como bêbados em torno de um barril de vinho eles estavam deitados mortos de cansaço em torno dos restos do boi.

Justamente nessa época acreditei ter visto o imperador em pessoa numa janela do palácio; em geral ele nunca vem a esses aposentos externos, vive sempre no mais interno dos jardins; mas dessa vez, pelo menos assim me pareceu, ele estava em pé junto a uma das janelas olhando de cabeça baixa o movimento diante do seu castelo.

- O que irá acontecer - todos nós nos perguntamos. - Quanto tempo vamos suportar esse peso e tormento? O palácio imperial atraiu os nômades mas não é capaz de expulsá-los. Os portões permanecem fechados; a guarda, que antes entrava e saía marchando festivamente, mantém-se atrás das janelas gradeadas. A nós, artesãos e comerciantes, foi confiada a salvação da pátria; mas não estamos à altura de uma tarefa dessas, nem jamais nos vangloriamos de estar. É um equívoco e por causa dele vamos nos arruinar.


Tradução de MODESTO CARONE

Arquivos Folha de São Paulo

FRANZ KAFKA - CHACAIS E ÁRABES


FRANZ KAFKA


Estávamos acampados no oásis. Os companheiros dormiam. Um árabe alto e branco passou por mim; tinha cuidado dos camelos e caminhava até o lugar onde dormia.

Lancei-me de costas na relva; não queria dormir; não conseguia; o uivo lamentoso de um chacal à distância; sentei-me outra vez. E o que estivera tão longe estava de repente perto. Chacais fervilhavam em torno de mim: olhos de ouro fosco brilhando e se extinguindo; corpos esguios como que movidos em ritmo regular e lépido por um chicote.

Um deles veio lá de trás, abriu caminho sob o meu braço, colado a mim como se necessitasse do meu calor, depois ficou à minha frente e, olho no olho, me falou:

- Sou o mais velho dos chacais em toda a redondeza. Estou contente em poder saudá-lo ainda aqui. Já tinha quase perdido a esperança, pois esperamos por você infindável; minha mãe esperou, a mãe dela esperou e assim todas as mães, até chegar à mãe de todos os chacais. Acredite em mim.

- Isso me deixa admirado - disse eu, esquecendo de acender a pilha de lenha que estava preparada para manter com a sua fumaça os chacais à distância.

- É só por acaso que venho do norte distante e estou fazendo uma curta viagem. O que vocês querem, chacais?

Como que encorajados por essa fala talvez demasiado amável eles formaram um círculo mais estreito ao meu redor; todos tinham a respiração curta e resfolegante.

- Sabemos que você vem do norte - começou o mais velho - e é nisso que se funda a nossa esperança. Lá existe a capacidade de compreensão que não se pode encontrar aqui entre os árabes. Dessa fria altivez, você sabe, não pode saltar nenhuma centelha de compreensão. Eles matam animais para comê-los e desprezam a carniça.

- Não fale tão alto - disse eu -, há árabes dormindo perto.

- Você é realmente um estrangeiro - disse o chacal. Se não fosse, saberia que nunca na história do mundo um chacal teve medo de um árabe. Deveríamos ter medo deles? Não é desgraça suficiente termos sido jogados no meio de um povo como esse?

- Pode ser, pode ser - disse eu -, não me atrevo a julgar coisas que estão tão distantes de mim; parece ser uma disputa muito antiga; seguramente está no sangue e talvez por isso só termine com o sangue.

- Você é muito sagaz - disse o velho chacal e todos respiraram mais célere ainda, com os pulmões excitados, embora todos eles estivessem parados; um cheiro amargo, só suportável por momentos com os dentes cerrados, fluía das bocarras abertas. - Você é muito sagaz; o que diz corresponde à nossa velha doutrina. Tiramos-lhes portanto o sangue e a disputa acaba.

- Oh - disse eu com mais veemência do que queria - eles irão se defender; irão abatê-los a tiros aos montes com os seus rifles.

- Você nos interpreta mal - disse ele - segundo a maneira dos homens, que persiste também no norte distante. Sem dúvida nós não iremos matá-los. O Nilo não teria água suficiente para nos purificar. Já diante da mera aparição dos seus corpos vivos partimos às pressas para um ar mais puro, para o deserto, que por essa razão é o nosso lar.

E todos os chacais em volta aos quais nesse ínterim haviam se juntado muitos outros vindo de longe, afundaram as cabeças entre as pernas dianteiras, limpando-as com as patas; era como se quisessem ocultar uma antipatia tão terrível que eu teria preferido escapar do seu círculo com um grande salto.

- Então, o que vocês pretendem fazer? - perguntei e quis me levantar mas não pude; dois animais jovens haviam cravado os dentes com firmeza na parte de trás do meu casaco e da minha camisa; tive de permanecer sentado.

- Eles estão segurando a sua cauda - disse o chacal num tom de esclarecimento e seriedade. - É um testemunho de respeito.

- Eles precisam me soltar! - bradei voltado ora para o velho, ora para os jovens chacais.

- É evidente que eles irão fazê-lo - disse o velho chacal - se você o exige. Mas demora um pouco, pois, seguindo o costume, eles morderam fundo e têm que separar lentamente as mandíbulas. Enquanto isso ouça o nosso pedido.

- O comportamento de vocês não me torna muito receptivo - disse eu.

- Não cobre a nossa falta de jeito - disse e pela primeira vez recorreu à ajuda do tom lamentoso da sua voz natural. - Somos pobres animais, temos apenas mandíbulas; só nos restam as mandíbulas para tudo o que queremos fazer, seja bom, seja mau.

- O que então você quer? - perguntei apenas um pouco abrandando.

- Senhor - exclamou e todos os chacais uivaram; na distância mais remota parecia ser uma melodia. - Senhor, deve acabar com a disputa que divide o mundo em dois. Nossos antepassados descreveram aquele que irá fazê-lo exatamente assim como você é. Precisamos de paz com os árabes, de ar respirável; purificada deles a vista em torno do horizonte; nenhum grito de lamúria de um carneiro que o árabe esfaqueia; todos os animais devem morrer tranquilamente; bebidos por nós sem transtorno até ficarem vazios e limpos até os ossos. Limpeza, nada mais que limpeza é o que nós queremos - e aí todos choraram e soluçaram. - Como suporta viver neste mundo, ó nobre coração, doces entranhas? A sujeira é o branco deles, a sujeira o seu preto; um horror a sua barba; é preciso cuspir à vista do canto dos seus olhos; e se erguem o braço, o inferno se abre na sua axila. Por isso, senhor, por isso, ó caro senhor, com a ajuda dessas mãos que tudo podem, corte-lhes de lado a lado os pescoços com esta tesoura!

E acompanhando uma guinada da sua cabeça apareceu um chacal que trazia num dente canino uma pequena tesoura de costura coberta de ferrugem velha.

- Finalmente a tesoura - e agora basta! - bradou o chefe árabe da nossa caravana que havia se esgueirado contra o vento até nós e nesse momento brandia seu gigantesco chicote.

Todos os chacais se dispersaram o mais rápido possível, mas ficaram a alguma distância, agachados bem perto uns dos outros - tantos, tão juntos e tão parados que pareciam um pequeno radie à cuja volta voassem fogos-fátuos.

- Então o senhor também viu e ouviu este espetáculo disse o árabe e riu com a alegria que a contensão da sua estirpe permitia.

- Você sabe então o que os animais querem? - perguntei.

- Naturalmente, senhor - disse ele. - Isso é conhecido desde há muito tempo; enquanto existirem árabes essa tesoura vai peregrinar pelo deserto e andar conosco até o fim dos nossos dias. Ela é oferecida a todo europeu para realizar a grande obra; todo europeu é justamente aquele que lhes parece convocado para isso. Esses animais têm uma esperança absurda; são loucos, verdadeiros loucos. Por isso nós os amamos; são nossos cães - mais belos que os de vocês. Veja um camelo morreu durante a noite, mandei que o trouxessem para cá.

Quatro carregadores chegaram e atiraram o cadáver diante de nós. Mal ele jazia ali os chacais levantaram suas vozes. Como que puxados irresistivelmente por cordas cada um deles veio se aproximando, com paradas no meio do caminho, o corpo esfregando no chão. Tinham esquecido os árabes, esquecido o ódio, fascinava-os a presença do corpo que exalava um cheiro forte e obliterava tudo. Um deles já se pendurava no pescoço e encontrava a jugular com a primeira mordida. Como uma pequena bomba frenética que quer apagar um incêndio poderoso de uma maneira tão incondicional quanto sem perspectiva, cada músculo do organismo se estirava e contraía no seu lugar. E logo todos se amontoaram sobre o cadáver fazendo o mesmo trabalho.

Então o chefe da caravana vibrou com energia o chicote em todos os sentidos sobre eles. Os chacais ergueram a cabeça, meio ébrios e desmaiados; viram os árabes em pé diante deles; começaram a sentir o chicote com os focinhos; recuaram num salto e correram um trecho para trás. Mas o sangue do camelo já se espalhava em poças e fumegava, o corpo estava bem aberto em vários lugares. Não conseguiram resistir; estavam de novo ali; o chefe árabe ergueu outra vez o chicote; segurei seu braço.

- Tem razão, senhor - disse ele. - Vamos deixá-los no seu ofício; é hora de levantar acampamento. Animais maravilhosos, não é verdade? E como nos odeiam!


Tradução de Modesto Carone


Arquivos Folha de São Paulo

terça-feira, 29 de setembro de 2009

LITERATURA, PÃO E POESIA


LITERATURA, PÃO E POESIA
Sérgio Vaz*


A literatura na periferia não tem descanso, a cada dia chega mais livros. A cada dia chega mais escritores, e, por conseqüência disso, mais leitores. Só os cegos não querem enxergar este movimento que cresce a olho nu, neste início de século. Só os surdos não querem ouvir o coração deste povo lindo e inteligente zabumbando de amor pela poesia. Só os mudos, sempre eles, não dizem nada. Esses custam a acreditar.

Não quero nem falar dos saraus que estão acontecendo aos montes, pelas quebradas de São Paulo. Isto me tomaria muito tempo. Haja visto as dezenas de encontros literários, pipocando nas noites paulistanas. Cada qual do seu jeito, cada qual com seu tema, cada qual a sua maneira de cortejar as palavras.

Mas eu quero falar mesmo e da poesia que se espalhou feito um vírus no cérebro dos homens e mulheres da periferia. Pois é, essa mesma poesia que há tempos era tratada como uma dama pelos intelectuais, hoje vive se esfregando pelos cantos dos subúrbios à procura de novas emoções.

O Tal poema, que desfilava pela academia, de terno e gravata, proferindo palavras de alto calão para platéias desanimadas, hoje, anda sem camisa, feito moleque pelos terreiros, comendo miudinho na mão da mulherada. Vocês, por acaso, já ouviram falar do tal poema concreto? Pois é, os trabalhadores e desempregados estão construindo bibliotecas com eles, nas favelas. E o lobo mau pode assoprar que não derruba. Apesar da pouca roupa que lhe deram está se sentindo todo importante com sua nova utilidade.

A periferia nunca esteve tão violenta, pelas manhãs é comum ver, nos ônibus, homens e mulheres segurando armas de até 400 páginas. Jovens traficando contos, adultos, romances. Os mais desesperados, cheirando crônicas sem parar. Outro dia um cara enrolou um soneto bem na frente da minha filha.

Dei-lhe um acróstico bem forte na cara. Ficou com a rima quebrada por uma semana.

A criançada está muito louca de história infantil. Umas já estão tão viciadas, que, apesar de tudo e de todos, querem ir para as universidades.

Viu, quem mandou esconder a literatura da gente, Agora nós queremos tudo de uma vez!

Dizem por aí que alguns sábios não estão gostando nada de ver a palavra bonita beijando gente feia. Mas neste país de pele e osso, quem é o sábio?

Quem é o feio? E olha que a gente nem queria o café da manhã, só um pedaço de pão. Que comam brioches!

Não, não é Alice no país da maravilha, mas também não é o inferno de Dante.

É só o milagre da poesia.
Quem é que odeia ler agora?

Manifesto da Antropofagia periférica

A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.

A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.

Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.
Do teatro que não vem do “ter ou não ter...”. Do cinema real que transmite ilusão.
Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras.
Da Dança que desafoga no lago dos cisnes.
Da Música que não embala os adormecidos.
Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.

A Periferia unida, no centro de todas as coisas.

Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.
Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução.

Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.

Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.
Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.
Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? “Me ame pra nós!”.
Contra os carrascos e as vítimas do sistema.
Contra os covardes e eruditos de aquário.
Contra o artista serviçal escravo da vaidade.
Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

É TUDO NOSSO!

*Sérgio Vaz - é poeta da periferia, criador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), autor de Pensamentos Vadios (1999), A Margem do Vento (1995) e Subindo a ladeira mora a noite (1992).

Revista Z Cultural

domingo, 27 de setembro de 2009

A neve e o amor


Neste dia de calor ardente, estou esperando a neve.
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fédor Dostoievski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem a boca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor
da neve caindo nas estepes
e nos telhados das cabanas escuras
e no casaco roto de Fédor Dostoievski.
Para ver o amor, nada basta. E tanto o frio do inverno como o calor escaldante
o afastam de nós, de nossos braços abertos
e de nossos corações atormentados.
Fiel à minha infância, prefiro ver a neve
que une o céu e a terra, a noite e o dia,
a ser a presa indefesa do amor,
o amor que não é branco nem puro nem frio como a neve
.

Lêdo Ivo

Academia Brasileira de Letras - Revista Brasileira

Novo soneto de Paris



Uma folha caída na avenida.
É assim que se extingue um amanhã.
Paris me diz que toda vida é vã,
a branca estrela da estação perdida.

A ti, folha de plátano caída
no chão dourado da plúmbea manhã,
um frio de outono que nenhuma lã
vai proteger da morte prometida,

a ti dedico os passos derradeiros
que me afastam da vida quando passo
sob as árvores da longa alameda.

Entre a noite indolente e os sóis primeiros
cai a folha do amor, e cai no espaço
do dia breve. E a morte é muda e leda.


Lêdo Ivo

Academia Brasileira de Letras - Revista Brasileira

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Poesia é ouvir vozes

Poesia é ouvir vozes
Em sua obra, o poeta Ferreira Gullar mostra que mesmo a notícia mais corriqueira pode ser transformada em expressão poética

Gabriel Perissé


Obra de Antonio Henrique Amaral, no livro Resmungos, de Ferreira Gullar e Antonio Henrique Amaral, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006
O poeta Ferreira Gullar (1930-) ouve vozes desde muito cedo. Desde sempre, a vida toda, e com essas vozes aprende. Um dos seus livros chama-se Muitas vozes (1999), porque de fato são muitas as que chegam aos seus ouvidos, provenientes das entranhas da realidade e do próprio poema:

[...] O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
- essa voz somos nós.

Afinar o ouvido para apreender essas vozes é detectar a humanidade, esperar uma fala, desejar o início de um diálogo. Em outro poema, escrito quando se encontrava preso em 1969 no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar, o poeta ouvia coisas:

Ouço as árvores
lá fora
sob as nuvens

Ouço vozes
risos
uma porta que bate ("O prisioneiro", no livro Dentro da noite veloz)

Com o horizonte visual limitado, com sua liberdade física cerceada, o prisioneiro se liberta pela audição atenta, torna-se hipersensível aos ruídos e mensagens que venham de fora dar-lhe notícias sobre o mundo.

Barulhos e aprendizado
Além de vozes, barulhos. Barulhos são também vozes que nos falam. Não são vozes do Além, mas do aquém mesmo, vozes que estão ao nosso lado, ou atrás das paredes, ou debaixo do chão. Vozes embrulhadas, ruídos que dizem alguma coisa à sensibilidade, mas dependem do silêncio interior. Uma leitura educadora é sempre uma leitura silenciosa, na qual podemos escutar melhor, e aprender.

No poema "Aprendizado", do livro Barulhos (1987), Gullar faz uma descoberta lancinante. A alegria e o sofrimento são duas faces da mesma vida, dessa vida cheia de barulhos e ruídos. O poema, no entanto, cria um espaço de discernimento:

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Não é aprendizado fácil. O poeta exige de nós coerência máxima. Quer que abramos nossos ouvidos e nossa existência à realidade, em suas dimensões de riso e choro, sem ilusões ou alienações. Já antes, em Dentro da noite veloz (1975), no poema "A casa", ensinava que sob o assoalho da casa de sua infância, sob as tábuas velhas, havia algo ou alguém falando. De lá saía uma fala. Seriam os mortos a falar? Ou uma moeda que rolara e caíra ali embaixo e lá permaneceria para sempre, esquecida? Seriam as chuvas torrenciais? Seria a classe operária a falar?

Fala
talvez um rato
que nos ouvia de sob as tábuas
e conosco aprendeu a mentir
e amar

Se fosse um rato, excelente aluno ele teria sido. Aprendera com os homens que a convivência é tão ambígua quanto a própria vida. Se a vida é alegria e sofrimento indissociáveis entre si, a perigosa dupla mentir-amar constitui outra fonte de perplexidade. E a perplexidade inevitável, por sua vez, remete à lucidez. É outra dupla com que nos deparamos. Perplexo, sinto-me chamado a pensar com uma nova maturidade.

Poesia educadora
Quando ouvimos as vozes dissonantes e opostas da vida, ficamos perplexos, perdemos a segurança que julgávamos ter. Não seria a educação formal o caminho para eliminar essa confusão, dando-nos a certeza de que existe uma resposta única e verdadeira, capaz de acalmar nosso coração e nossa mente?

No discurso de abertura que fez ao 25º Congresso Mundial de Educação através da Arte, realizado no Rio de Janeiro, em 1983 (incluído em Indagações de hoje, de 1989), Gullar fez uma consideração assustadora e realista. A educação não se restringe mais (se é que algum dia se restringiu) aos espaços da família e da escola. Está em toda parte, sem projetos pedagógicos que lhe deem unidade; e em toda parte há educadores, a favor ou contra a nossa humanização:

A sociedade educa através dos programas de rádio, dos programas de televisão, dos jornais, dos livros, das revistas pornográficas, das histórias em quadrinhos, das empresas, da prática do esporte, dos assaltos à mão armada, da tortura dos prisioneiros políticos e dos presos comuns; das palavras dos pais e das ações dos pais. Cada indivíduo é um professor a serviço da sociedade ou contra ela, mas sempre em função dos valores estabelecidos.

A poesia educa também. Os poetas são antenas, radares, sensores vivos que captam todo tipo de informações desencontradas, e as transformam em palavras significativas. São escutadores profissionais da existência. Mesmo a notícia tão pedestre como a de um vestibulando que fugiu de casa ao saber do resultado negativo pode traduzir-se, se bem ouvida, em poema-carta, como de fato aconteceu no poema "Vestibular", ainda em Dentro da noite veloz.

O poeta conversa com Paulo Roberto Parreiras que, de raiva ou vergonha, sumiu de casa. Tanto ele estudou para passar no vestibular, tantos sacrifícios fez ao longo do ano letivo, tantas renúncias aos prazeres da adolescência, e mesmo assim foi reprovado. O poeta compreende sua tristeza, sua frustração, mas não pode lhe oferecer muito mais, além de uma palavra "de amigo desconhecido".

Contudo, é essa voz desconhecida ao desconhecido Paulo, voz que nasce de sob as tábuas do poema, é essa voz de poeta que pode, ao rapaz (e a nós), educar. Porque também nós somos reprovados em centenas de vestibulares, testes, provas e exames, reprovados pelos outros, pela sociedade, pelo destino:

Não sei pra onde você foi
nem o que pretende fazer
nem posso dizer que volte
para casa,
estude (mais?) e tente outra vez.
Não tenho nenhum poder,
nada posso assegurar.
Tudo que posso dizer-lhe
é que a gente não foge
da vida,
é que não adianta fugir.
Nem adianta endoidar.
Tudo o que posso dizer-lhe
é que você tem o direito de estudar.
É justa a sua revolta:
seu outro vestibular.

Revoltar-se contra a vida faz parte do jogo da vida. E o "outro vestibular" é mais do que outra prova para ingressar na faculdade. É outro pórtico, outra soleira - espaço perigoso que nos separa da vida, e à vida nos conduz.

Gabriel Perissé é doutor em filosofia da educação (USP) e professor do Programa de Mestrado da Universidade Nove de Julho (SP)
www.perisse.com.br

Revista Educação

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Entre jeans e lágrimas


Escrito por Dani Machado
01-Jul-2009
Curiosamente, eu não sabia que a Terra tinha seu dia

um dia seguinte da escrita desta crônica.



Chove. Chove. Chove. Chove muito. - Até parece que a Terra revoltada resolveu descarregar todas as suas lágrimas de uma só vez. Ela pensava.
Decidiu não mais sair de casa. E observava a chuva. Talvez como a chuva, seu estado era se tornar inerte, resoluta e conseguintemente cansada. E tirava suas dúvidas com a natureza. Ficou convencida de que não adiantaria esperar a chuva passar porque as nuvens lhe responderam que iriam permanecer chorando por mais umas oito horas com o intuito de reivindicação com os homens de que a natureza estava também cansada por sofrer inúmeros ataques de violência todos os dias. Sabiamente, ela chorava, pois tinha a noção de que chorando, as pessoas, saíam menos de casa.


- Parece que a Terra tem razão – refletiu. Então tirou a jaqueta jeans azul surrada de tanto uso, as sapatilhas azul e a calça jeans também azul. E percebeu nesse instante que o azul repetitivo de seus tons que usara ao tentar sair de casa, revelava a saudade de sair de casa nas tardes calorentas de um Rio suado e mergulhado em cores de verão que se despediam. Chegava o outono e o azul que surgia intimava a sua saudade para um passeio. Mas não se tratava de um passeio comum, como aquele que ela pensara em fazer há sete minutos atrás.


Mudou o seu rumo, tirou o azul que lhe dava saudade e decidiu ouvir jazz e tomar chocolate amargo quente com a necessária impressão de que se ela não se intimava com a idéia conseqüente de que nada adiantaria sentir as lágrimas do Planeta nesse momento, e se ela não mudasse o trajeto de seu passeio nessa tarde, de nada valeria saborear as cores azuis da vida e respirar os gostos amargos dos chocolates quentes das inúmeras tardes chuvosas de outonos passados.


Respirou intensamente. Enxugou uma lágrima que escorria-lhe a face e tal como as lágrimas da Terra, baixou o volume do som que tocava Julie London com a versão de Cry me a river e esta foi traduzida em seu final como um pedido de socorro. Dessa vez quem chorou muito foi ela. Chorou, chorou e chorou.

Fonte: http://revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=463&Itemid=1

Revita Autor

Nosotras e o Círculo de Mulheres Brasileiras: feminismo tropical em Paris

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Joana Maria Pedro e Cristina Scheibe Wolff
Revista ARTCULTURA

Di Cavalcante

Cidades traduzidas em prosa

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Márcia Naxara

Revista ARTCULTURA

terça-feira, 21 de julho de 2009

A Origem dos nomes dos Meses e do Ano Bissexto

As mudanças nos calendários ao longo da história.
por José Augusto Carvalho*


No calendário de Rômulo, o primeiro rei de Roma e seu fundador, o ano começava em março e tinha dez meses, cujos nomes primitivos eram Martius (em homenagem ao deus da guerra, Marte), Aprilis (nome relacionado a Apros ou Afros, designativo de Afrodite, nome grego da deusa Vênus, a quem abril era dedicado); Majus (em homenagem à deusa Maia, uma das Atlântidas, amada de Júpiter e mãe de Mercúrio), Junius (em homenagem à deusa Juno, equivalente à deusa Hera dos gregos), Quintilis, Sextilis, September, October, November e December. A relação de aprilis com aperire (abrir) surgiu posteriormente, na vigência do calendário de Numa Pompílio, por ser abril o mês da primavera, em que "todas as coisas se abrem".

Numa Pompílio (circa 715-circa 672 a.C.), sucessor de Rômulo, querendo igualar a contagem do tempo romano à dos gregos e fenícios, reformou o calendário de Rômulo, instituindo os meses de Januarius (em homenagem ao deus Janus, protetor dos lares) e Februarius, do latim februus, adjetivo de primeira classe que significa "o que purifica, purificador". No mês de fevereiro, realizavam-se cerimônias de purificação, como sacrifícios expiatórios e os ritos de purificação chamados "lupercálias a". As lupercálias eram festas em homenagem a Pã, realizadas no dia 15 de fevereiro, em que jovens saíam nus da gruta Lupercália flagelando os transeuntes com um cinto de pele de cabra chamado também lupercal , considerado capaz de eliminar a esterilidade e provocar partos felizes.

Homenagens

Os meses Quintilis e Sextilis foram rebatizados com os nomes de julho e agosto, em homenagem aos dois primeiros dos doze césares: Julius (Júlio César) e Augustus. Para que julho e agosto tivessem o mesmo número de dias, subtraíram-se dois dias do mês de fevereiro. Repare que as festas de junho são juninas (de Juno), mas as festas de julho são julianas (de Júlio), e não "julhinas" ou "julinas", nomes que não existem.


O mês da mentira


A reforma que Carlos IX empreendeu na França em 1564 apenas obrigava os franceses a seguir o calendário juliano (com o ano começando a primeiro de janeiro). Até então, e desde Carlos Magno, era o calendário de Rômulo (com o ano começando a primeiro de março) que vigorava na França. O papa Gregório XIII, em 1582, realizou uma nova reforma, ao verificar que o calendário juliano havia incorrido num erro anual de 11 minutos e 8 segundos.

Desde o ano 44 a.C. até 1582, por causa desse erro, havia uma diferença de dez dias. Para compensar esses 10 dias e regularizar a contagem do tempo, o papa determinou que, ao dia 5 de outubro de 1582, deveria seguir-se o dia 15 de outubro, e não o dia 6. A reforma gregoriana causou confusão com as datas e as comemorações tradicionais - além de bagunçar a astrologia. O dia 21 de março corresponderia ao fim do signo de peixes.

A confusão de 10 dias fez crer que o dia primeiro de abril era ainda de peixes, isto é, o signo pularia dez dias para terminar no dia primeiro de abril. Em francês, a expressão poissons d'avril, isto é, peixes de abril, passou a designar as mentiras de primeiro de abril, porque até o nome abril, por engano, teria passado a ser considerado como o primeiro dia do ano, a abrir o ano. Da França, o dia dos enganos se estendeu ao resto do Ocidente.


Abril

Abril vem de aprilis, nome de um dos espíritos que seguiam o carro de Marte, deus da guerra, que deu nome ao mês de março. Assim, aprilis não se relaciona com abrir (latim: aperire), mas com o grego Apros ou Afros, designativo de Afrodite, nome grego da deusa Vênus, a quem abril era dedicado, ou com o sânscrito áparah, que significa "posterior" (aparentado com o gótico afar ou aftra, que significa "depois"), pois abril era o segundo mês do ano, no calendário civil de Rômulo (daí os nomes setembro, outubro, novembro e dezembro para os meses sete, oito, nove e dez, respectivamente).



Lupercálias

O nome "Luperca" designa a loba que amamentou os gêmeos Rômulo e Remo na gruta chamada Lupercal. Na realidade, "lupus", lobo, em latim, primitivamente, não tinha feminino. A loba-animal era "lupus femina". "Lupa" designava a cortesã, daí o nome "lupanar" para designar o prostíbulo. A "lupa" que amamentou os gêmeos era, na verdade, uma cortesã chamada Aca Laurentia ou Laurentina. Os sacerdotes romanos é que "purificaram" a origem de Roma, atribuindo à loba-animal a amamentação dos gêmeos que fundaram a cidade.

Lupercal

Lupercus se teria originado da justaposição de lupus (lobo) com hircus (bode), mas, como era outro nome de Pã, deus dos pastores e dos rebanhos, presume-se que lupercus signifique também "o que afasta o lobo".



Fasti

A palavra fasti (latim) se refere ao calendário romano e, especialmente, a um poema longo e provavelmente inacabado do poeta Ovídio sobre os festivais religiosos do ano romano e suas origens mitológicas. Na Roma Antiga, fasti era o plural do adjetivo fastus, derivado de fas, que significa o que é imposto ou permitido pela lei divina, em oposto a jus, a lei humana. Assim, fasti se tornou sinônimo dos dias em que a lei podia ser cumprida sem piedade - os nossos dias úteis; os dias opostos aos dies fasti eram os dies nefasti, nos quais, por motivos religiosos, a corte não podia se reunir.


A partir daqueles três nomes

O calendário romano tinha três datas com nome próprio: Kalendae ou Calendas (o primeiro dia de cada mês), Nonae ou Nonas (o dia 5 de todos os meses, exceto março, maio, julho e outubro, em que Nonae designava o dia 7) e Idus ou Idos (o dia 15 para aqueles quatro meses e o dia 13 para os outros meses). Os outros dias de cada mês eram citados a partir daqueles três nomes.

Em outras palavras, em lugar de numerar os dias em sequência crescente, como fazemos, os romanos preferiam numerar os dias usando as palavras Calendas, Nonas e Idos como pontos de referência. Para se ter uma ideia, a expressão "desde 3 de junho até 31 de agosto" se dizia em latim como "terceiro dia antes das nonas de junho até o primeiro das calendas de setembro" ("ante diem III Nonas Junias usque ad pridie Kalendas Septembres").

O dia 24 de fevereiro era chamado "o sexto das calendas de março". No nosso calendário, o gregoriano, no ano bissexto, temos um dia a mais, acrescentado ao último dia do mês de fevereiro. Mas, no calendário juliano, o dia a mais era acrescentado ao dia 24. Ou melhor: havia dois dias de número 24. Portanto, havia duas vezes o sextus dies (bis sextus) antes das calendas de março. Desses dois sextos é que se originou a expressão "ano bissexto".

Nas modificações efetuadas por Numa Pompílio no calendário de Rômulo, o ano civil tinha um erro de dez dias em relação ao ano solar. Ele tentou corrigir o erro acrescentando um mês de dez dias entre 23 e 24 de fevereiro. Mas essa solução trouxe tantos problemas que, em 44 a.C., Júlio César resolveu modificar novamente o calendário, dando ao ano a duração de 12 meses, ou 365 dias, de acordo com o calendário egípcio.

Foi um astrônomo de Alexandria, chamado Sosígenes, que descobriu que o ano civil tinha seis horas a menos que o ano solar. Assim, Roma instituiu que a cada quatro anos seria acrescentado um dia em fevereiro. Como vimos, o dia 24 de fevereiro era chamado "sexto das calendas". Com o dia adicional (acrescentado após o dia 24, com a mesma numeração), houve dois sextos (=bissexto) das calendas.

Revista Língua Portuguesa

domingo, 19 de julho de 2009

Aprender a ver

A poesia de Cassiano Ricardo nos ensina a enxergar a importância e o alcance da visão humana

Gabriel Perissé

Cena de Um cão andaluz, de Luis Buñel e Salvador Dali: marco do surrealismo


Afirmava o poeta Charles Baudelaire que poderia passar vários dias sem comer, mas não conseguiria viver 24 horas sem poesia. Nem todo mundo ousaria referendar essa afirmação. Afirmação metafórica, cuja verdade não literal é que a poesia alimenta nossa sensibilidade, fortalece nossa relação com a linguagem, aumenta nossa capacidade de compreender a condição humana.

Por amor à nossa saúde interior, deveríamos reservar alguns minutos do dia para ler os poetas. Saborear rimas, aliterações e outras brincadeiras sonoras. Mentar novas imagens. Embarcar em ritmos que nos façam caminhar de modo mais criativo na prosa cotidiana.

Poesia que seja uma fuga... para a realidade, para o mundo, fuga que nos torne mais atentos ao que nos rodeia. A poesia de Cassiano Ricardo (1895-1974) nos ensina a empreender essa fuga realista. Abre-nos caminhos verbais para ver melhor, para pensar e agir com maior radicalidade.

Saber pensar poeticamente consiste em descobrir, mediante o jogo da palavra, novos aspectos e matizes do jogo da vida. O pensamento poético é uma espécie de vidência. Os poetas, por não fazerem o jejum da palavra, por serem devoradores e criadores do verbo, podem ver e ajudar a ver. Não sem razão, muito já se comentou sobre a semelhança entre a atividade dos poetas e a dos profetas.

Nascemos para ver
Cassiano Ricardo nos ensina a ver. A ver o quê?
Em primeiro lugar, ver a importância e o alcance da visão humana. Podemos ver mais do que imaginamos. O nosso olhar pode penetrar regiões impensáveis.
No poema "Mulher recém-morta num desastre" (do livro Montanha-russa, de 1960), o atropelamento banal de uma mulher é muito mais do que um lamentável episódio urbano:

Ei-la, agora, em decúbito
dorsal, o antigo olhar
apagado, tão de súbito
que continua a olhar.

O olhar morto continua vivo, mas vendo outras coisas. O mundo de cá, as flores, as coisas pequenas que ela via, tudo isso que a rodeava também deixou de existir subitamente, porque...

Só existiu quem foi visto
por seus olhos vigentes.
Não quem chegou antes,
nem quem chegar depois.


O mundo daquela mulher deixou de existir no momento em que ela deixou de contemplá-lo, mas parece que passou a admirar outras paisagens. O poeta assiste à cena de modo ativo e criativo. A mulher recém-morta só continua viva porque ele recolhe aquela mulher em seus versos. No final, um operário se aproxima do corpo inerte, e com a mão suja de graxa fecha-lhe as pálpebras. O motivo desse gesto é revelado pelo poeta. O operário tem medo de ser visto:

Com medo de ser visto
por seus olhos, tão distantes
que pareciam estar vendo
algo jamais visto antes.

O olhar, mesmo perdido, denuncia que algo está sendo visto para além do visível. Nunca paramos de ver. Nascemos para ver. Morremos para ver.

Visão do mundo e de mundo
A visão faz a realidade ganhar qualidade, consistência e valor. A visão humana é sempre interpretativa. O olhar humano faz o mundo tornar-se humano.

Em outro poema, "ETC." (em Um dia depois do outro, de 1947), Cassiano já se referia à visão:

Sem os nossos olhos, sem o que somos,
que adiantaria haver mundo?
Seria a árvore dos dourados pomos, etc.

O poeta alude aos versos de outro poema, conhecido nas antologias escolares do seu tempo, "Esperança", no qual o autor, Vicente de Carvalho (1866-1924), ensina que a felicidade desejada, "Árvore milagrosa que sonhamos / Toda arreada de dourados pomos, // Existe, sim; mas nós não a alcançamos / Porque está sempre apenas onde a pomos / E nunca a pomos onde nós estamos". O mundo seria essa árvore que a todos se entrega, com seus frutos, frutos que nós próprios tornamos inalcançáveis. Embora seja este mundo o único lugar da felicidade possível, ele seria inútil sem a nossa visão.

Ver ativamente é criar uma visão do mundo e uma visão de mundo. Nesse mesmo poema "ETC.", uma outra morte se dá. Trata-se agora de um suicídio:

Agora mesmo, não faz senão um minuto,
no banco do jardim... que foi? Um homem suicidou-se.

Mas não foi apenas um suicídio. Ele nos suprimiu, ao fechar seus olhos para o mundo:

Ele nos destruiu também, simbolicamente.
Que destruir a si mesmo importou, para ele,
em destruir o mundo físico,
que só existia em razão dos seus frágeis sentidos
principalmente em razão dos seus olhos, etc.

Nossos sentidos não são meros sensores. Há neles mil possibilidades. Vendo, ultrapasso as simples informações sensoriais, dou ao que vejo existência significativa, finalidade, sentido. Não basta existir, é preciso existir para alguém, existir aos olhos de alguém.

Por isso, o suicida não se mata apenas. Ele nos mata! Ele inviabiliza nossa existência, ao dizer (sem falar) que nós não temos tanta importância assim. Que ele não nos quer ver mais. Que não somos tão relevantes assim. Se não houvesse relação viva entre os homens, um morto seria apenas uma coisa morta e muda. Tal morte não diria nada a ninguém. O fato de não termos mais, sobre nós, os olhos do suicida faz com que percamos valor e existência.

Olhar de mútua aprovação
O olhar como um fiat de aprovação. Um "faça-se". Um olhar acolhedor e criador. Se um homem se mata, comunica determinada avaliação do mundo, desaprova tudo o que o rodeia, nega, enfim, a possibilidade de dar sentido a esse mundo.

No campo do ensino, o olhar se antecipa ao falar. O olhar do professor dá existência ao aluno, pondo esse aluno onde nós estamos, diante de nós, ao nosso lado, e não em pesquisas e tratados distantes da realidade. O modo como o professor encara seu aluno, o que dele pensa, é fundamental. É o professor, com sua maneira de conceber a educação, o conhecimento, o livro didático, a sala de aula, é o professor quem confere ao aluno a chance de crescimento, de existência efetiva. Olhando o aluno, não como coisa inerte ou incômoda, mas como um ser destinado a aprender, o professor abre-lhe efetivamente caminhos de aprendizado.

A recíproca é verdadeira. A legitimidade do professor não procede tanto dos diplomas que conquistou, ou do tempo de vida profissional acumulado, mas do olhar que recebe de seus alunos. Olhando o professor com respeito (respectare, em latim, significa "olhar muitas vezes e com atenção", "levar em consideração"), o aluno reafirma-lhe a condição de educador.

Sem esse olhar de mútua aprovação, é impossível ensinar, é impossível aprender.

Gabriel Perissé é doutor em filosofia da educação (USP) e professor do Programa de mestrado/doutorado da Universidade Nove de Julho (SP); www.perisse.com.br

Revista Educação