
(Quarta-feira, 22 de Abril)
Sabei porém que foi um sobressalto
E tremo ainda ao pô-lo no papel.
Vimos primeiro um monte muito alto
E outras serras mais baixas ao sul dele.
Vimos depois as serras terra chã
Muito formosa e cheia de arvoredos.
Era a luz a surgir de seus segredos
E em nós embora tarde era manhã.
Nem sei dizer Senhor o espanto e os medos.
Achar Senhor é pão que mata a fome
Da ânsia de mais mundo e de mais luz.
E ao monte grande o Capitão pôs nome
De Pascoal. E à terra de Vera Cruz.
Manuel Alegre
Nova do Achamento
Lisboa, Publicações Europa-América, s.d.
Descobrimento
Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios
O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
Sophia de Mello Breyner Andresen
«Brasil ou do outro lado do mar»,
Obra Poética III, Lisboa, Ed. Caminho
Carta de Pêro Vaz de Caminha
É equívoca a ternura. Demasiados gestos
Para uma só palavra.
E agora que será de nós? Ficar aqui?
Esta terra contém água em demasia.
Prefiro a inteireza da pedra. Mas que podemos nós fazer
Quando as palavras sobram
E o amor acontece?
Luís Filipe Castro Mendes
Inédito
Rio Caí
Encontrada a terra
Na coincidência da Páscoa
Caminha olhou da grande nau
A praia
E escreveu ao Rei
Nu
O dono da terra
Olhou o branco marítimo
Trazido pelo vento
A praia clareava a floresta
Junto do mar
Enfeitada de penas e flechas
De espadas
No vermelho branco do encontro
A surpresa não teve fingimento
Na vertigem do silêncio da palavra
O Rei
Leu a carta de Caminha
E ordenou a invenção da história
Como se nada fosse o que era
Rui Rasquilho
25 Poemas brasileiros e um Saga Lusitana
Thesauris, Brasília, 1997
Revista Camões - Portugal
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