segunda-feira, 27 de abril de 2009

Uma festa da criação


O elitismo, o racismo, o machismo e o militarismo impedem que a América reconheça no espelho seu rosto múltiplo e luminoso. Estamos abobados, dedicados a nossa própria negação e trabalhando por nossa própria perdição. América Latina, quero dizer? Não apenas a América Latina: também a exitosa América do Norte, com toda sua suspeita prosperidade material mascarando as mutilações da alma...

Nesta terra do mundo estão minhas alegrias mais altas e minhas tristezas mais fundas. Eu quis ajudá-la a deixar de ser boba. Sua verdadeira história, sua realidade verdadeira, é uma festa da criação.

Eduardo Galeano

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Esquece


Tenra paisagem!!

A face parada ao tempo

Contempla nada que seus olhos buscam...

Fostes o fruto da minha ingenuidade

Fostes a brisa da minha virgindade

E eu na adolescência mal vivida

Não saciei minha sede

Nem te levei ao céu

Eu era o sonho e a incerteza

Eu era a pura e virginal beleza

Era isso o grande mal.



Hoje contemplas a ferida

A carne carcomida

Buscas razões para tal.



O tempo adormeceu.



As façanhas não resolvidas

O espírito, a carne tétricas feridas

De um tempo que não passou.



Tua presença a fitar o nada

O caminho que para trás ficou

Fita-me a esperança.

Busca em mim a criança

O enfeite a acariciar.



Não tenho certeza da vida certa

Não tenho a vida que você beijou.

Agora a incerteza reflete a vida que ficou perdida...

Vai...

Esquece essa vida!!



José Carlos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

DESEJO.....


"Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar".
Poema de Victor Hugo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A HISTORIA EM TOM DE POESIA - O MUNDO


Um Homem da aldeia Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso - revelou -. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossívelolhar para elessem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano - Livro dos abraços.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A história em tom de poesia - Função da Arte


Diego não conhecia o mar. O pai Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
_ Me ajuda a olhar!

Eduardo Galeano - Livro dos Abraços

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O CORPO


"E este honesto ser, o eu - esse fala do corpo e quer, ainda, o corpo, mesmo quando faz poesia e sonha e esvoaça com as asas partidas.
Aprende a falar de forma cada vez mais honesta, o eu; e, quanto mais o aprende, tanto mais encontra palavras e gestos de respeito pelo corpo e pela terra" (Nietzsche, F. Zaratustra, Dos Transmudos)

Educação


"Eu sou corpo e alma - assim fala a criança. E por que não se deveria falar como as crianças?" (Nietzshe. Dos desprezadores do corpo)