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sexta-feira, 4 de junho de 2010

O ar e o vento


O ar e o vento
Pelos caminhos vou, como o burrinho de São Fernando, um pouquinho a
pé e outro pouquinho andando. Às vezes me reconheço nos demais. Me reconheço
nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos de justiça e bichos voadores da
beleza e demais vadios e mal cuidados que andam por aí e que por aí continuarão,
como continuarão as estrelas da noite e as ondas do mar. Então, quando me
reconheço neles, eu sou ar aprendendo a saber-me continuado no vento.
Acho que foi Vallejo, César Vallejo, que disse que às vezes o vento muda
de ar.
Quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando
.
Livro dos Abraços
Eduardo Galeano

A ventania



A ventania
Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de
ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a
contra-vento, e sou o vento que bate em minha cara.


Livro dos Abraços
Eduardo Galeano

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crônica da cidade do Rio de Janeiro



Crônica da cidade do Rio de Janeiro
No alto da noite do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, o Cristo Redentor
estende os bracos. Debaixo desses bracos os netos dos escravos encontram amparo.
Uma mulher descalca olha o Cristo, la de baixo, e apontando seu fulgor,
diz, muito tristemente:
— Daqui a pouco, ja nao estara mais ai. Ouvi dizer que vao tirar Ele dai.
— Nao se preocupe — tranquiliza uma vizinha —. Nao se preocupe: Ele volta.
A policia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta
soam tiros e tambem tambores: atabaques, ansiosos de consolo e de vinganca,
chamam deuses africanos. Cristo sozinho nao basta.
Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As flores



As flores
O escritor brasileiro Nelson Rodrigues estava condenado a solidao. Tinha
cara de sapo e lingua de serpente, e a seu prestigio de feio e sua fama de venenoso
somava-se a notoriedade de seu contagioso azar: as pessoas ao seu redor morriam
de tiro, miseria ou infelicidade fatal.
Certo dia, Nelson conheceu Eleonora. Naquele dia, dia do descobrimento,
quando pela primeira vez viu aquela mulher, uma violenta alegria atropelou-o e
deixou-o abobado. Entao, quis dizer alguma de suas frases brilhantes, mas as
pernas bambearam e a lingua se enrolou e nao conseguiu outra coisa a nao ser
gaguejar ruidinhos.
Bombardeou-a de flores. Mandava flores para o apartamento dela, no alto
de um edificio do Rio de Janeiro. A cada dia mandava um grande ramo de flores,
flores sempre diferentes, sem repetir jamais as cores ou aromas, e ficava esperando

la embaixo: la de baixo via a varanda de Eleonora, e da varanda ela atirava as flores
na rua, todos os dias, e os automoveis as esmagavam.
E foi assim durante cinquenta dias. Ate que um dia, um meio-dia, as
flores que Nelson enviou nao cairam na rua e nao foram pisadas pelos automoveis.
Naquele meio-dia, ele subiu ate o ultimo andar, apertou a campainha e a
porta se abriu.


Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

As formigas



As formigas

Tracey Hill era menina num povoado de Connecticut, e se divertia com
diversoes proprias de sua idade, como qualquer outro doce anjinho de Deus no
estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta.
Um dia, junto a seus companheirinhos de escola, Tracey se pos a atirar
fosforos acesos num formigueiro. Todos desfrutaram muito daquele sadio
entretenimento infantil; Tracey, porem, ficou impressionada com uma coisa que os
outros nao viram, ou fizeram como se nao vissem, mas que deixou-a paralisada e
deixou nela, para sempre, um sinal na memoria: frente ao fogo, frente ao perigo, as
formigas separavam-se em casais e assim, de duas em duas, bem juntinhas,
esperavam a morte.


Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Fundação da beleza


Fundação da beleza
Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.


Estas figuras, bisões, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens, não têm idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.


Como eles conseguiram, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como eles conseguiram, esses brutos que de mão limpa lutavam contra as feras, criar figuras tão cheias de graça?Como eles conseguiram desenhar essas linhas voadoras que escapam da rocha e se vão para o ar? Como eles conseguiram …?


Ou seriam elas?


Eduardo Galeano - Le Monde Diplomatique

Fundação da poluição


Fundação da poluição
Os pigmeus, que têm corpo pequeno e memória grande, recordam os tempos de antes do tempo, quando a terra estava acima do céu.


Da terra caía sobre o céu uma chuva incessante de pó e de lixo, que sujava a casa dos deuses e lhes envenenava a comida.


Os deuses estavam, havia uma eternidade, suportando essa descarga sebosa, quando sua paciência acabou.


Enviaram um raio, que partiu a terra em dois. E através da terra aberta lançaram para alto o sol, a lua e as estrelas, e por esse caminho subiram eles também. E lá em cima, distante de nós, a salvo de nós, os deuses fundaram seu novo reino.


Desde então, estamos embaixo.

Eduardo Galeano - Le Monde Diplomatique