sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os que lutam



Os que lutam
Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis

BERTOLD BRECHT

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Se os tubarões fossem homens


Se os tubarões fossem homens

Bertolt Brecht

Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha da sua senhoria ao Senhor K., eles seriam mais amáveis com os peixinhos?
Certamente, disse ele.
Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos com todo tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca, e tomariam toda espécie de medidas sanitárias.
Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, então lhe fariam imediatamente um curativo, para que ele não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes.
Naturalmente, haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas, os peixinhos aprenderiam como nadar para as goelas dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.
O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura.
Os peixinhos saberiam que esse futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um dentre eles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões.
Os peixinhos – eles iriam proclamar – são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que a seus acordes todos os peixinhos, com a orquestra na frente, sonhando, embalados nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso, se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isto seria agradável para os tubarões, pois eles teriam, com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores, detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc.
Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens.


Bertolt Brecht (1898-1956) reuniu na obra Histórias do Senhor Keuner, em 1932, parábolas escritas com humor e ironia, satirizando o comportamento da época. pucviva

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Em Vida...Vida... A Celebrar!


Em Vida...Vida... A Celebrar!

Em Vida...Vida... A Celebrar!
Manollo Ferreira


Derrotas...
Vitórias...
Passam!
Em branco...
Em preto...
A cores!
Ficam alegrias por estar,
Num gesto,
De boca... A sorrir!
De olho... A brilhar!
De mãos em braços... A abraçar!
Homens!
Mulheres!
Amigos, companheiros, familiares...
Cúmplices de um tempo perfeito
Em festa, a brindar...
Momentos em vida...
... Vida... A celebrar!
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crônica da cidade do Rio de Janeiro



Crônica da cidade do Rio de Janeiro
No alto da noite do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, o Cristo Redentor
estende os bracos. Debaixo desses bracos os netos dos escravos encontram amparo.
Uma mulher descalca olha o Cristo, la de baixo, e apontando seu fulgor,
diz, muito tristemente:
— Daqui a pouco, ja nao estara mais ai. Ouvi dizer que vao tirar Ele dai.
— Nao se preocupe — tranquiliza uma vizinha —. Nao se preocupe: Ele volta.
A policia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta
soam tiros e tambem tambores: atabaques, ansiosos de consolo e de vinganca,
chamam deuses africanos. Cristo sozinho nao basta.
Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As flores



As flores
O escritor brasileiro Nelson Rodrigues estava condenado a solidao. Tinha
cara de sapo e lingua de serpente, e a seu prestigio de feio e sua fama de venenoso
somava-se a notoriedade de seu contagioso azar: as pessoas ao seu redor morriam
de tiro, miseria ou infelicidade fatal.
Certo dia, Nelson conheceu Eleonora. Naquele dia, dia do descobrimento,
quando pela primeira vez viu aquela mulher, uma violenta alegria atropelou-o e
deixou-o abobado. Entao, quis dizer alguma de suas frases brilhantes, mas as
pernas bambearam e a lingua se enrolou e nao conseguiu outra coisa a nao ser
gaguejar ruidinhos.
Bombardeou-a de flores. Mandava flores para o apartamento dela, no alto
de um edificio do Rio de Janeiro. A cada dia mandava um grande ramo de flores,
flores sempre diferentes, sem repetir jamais as cores ou aromas, e ficava esperando

la embaixo: la de baixo via a varanda de Eleonora, e da varanda ela atirava as flores
na rua, todos os dias, e os automoveis as esmagavam.
E foi assim durante cinquenta dias. Ate que um dia, um meio-dia, as
flores que Nelson enviou nao cairam na rua e nao foram pisadas pelos automoveis.
Naquele meio-dia, ele subiu ate o ultimo andar, apertou a campainha e a
porta se abriu.


Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

As formigas



As formigas

Tracey Hill era menina num povoado de Connecticut, e se divertia com
diversoes proprias de sua idade, como qualquer outro doce anjinho de Deus no
estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta.
Um dia, junto a seus companheirinhos de escola, Tracey se pos a atirar
fosforos acesos num formigueiro. Todos desfrutaram muito daquele sadio
entretenimento infantil; Tracey, porem, ficou impressionada com uma coisa que os
outros nao viram, ou fizeram como se nao vissem, mas que deixou-a paralisada e
deixou nela, para sempre, um sinal na memoria: frente ao fogo, frente ao perigo, as
formigas separavam-se em casais e assim, de duas em duas, bem juntinhas,
esperavam a morte.


Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

sábado, 7 de novembro de 2009

A única razão


A vida é uma grande incógnita...

Amar...

Fazer...

Criar...




Certeza?

Vida...

Morte...

Fé...




Caminhos obscuros...

Mas a luz é você.

Única certeza...Amar... Razão...Vida.